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Black Lodge
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Sexta-feira, Abril 07, 2006:
Im so sorry
Você dorme tranqüilo ao meu lado. Eu faço carinho lentamente na sua cabeça e uma lágrima cai de mansinho no canto do meu olho. Ainda não tirei a roupa que cheguei, estou de blusa vermelha, tomara que caia e o meu colo está à mostra, sexy, branco, provocante. Sinto o cheiro de homem, e não é o seu. Mas você nunca perceberia que meu colo acabava de ser beijado, lambido, gozado, por outro homem. Mesmo assim eu tenho a cara de pau de deitar na sua cama. Essa cama sempre me traz paz, e você não imagina o que é, para uma cabeça conturbada, encontrar paz. Mas eu não consegui, não fui tão forte a ponto de me contentar com o tranqüilo. Eu olho seu rosto sereno e sei que está feliz comigo. Me sinto miserável. Chego pertinho do seu ouvido e canto baixinho uma música do smiths: im so sorry
Em minhas recordações sempre acabo cantando no pé do ouvido de quem eu gosto o refrão dessa música. Fracasso muito com os outros, mas muito mais comigo mesma. Meus erros parecem um disco riscado, que sempre param em um refrão triste.
INGRID MANTOVANI // 2:49 AM
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Quarta-feira, Abril 05, 2006:
Quarentena
Quando era criança costumava acompanhar minha avó nas suas visitas ao asilo. Íamos ver uma parente distante que os atos insanos já haviam dominado os lúcidos.
Asilo era eufemismo para um hospício de pessoas que não tinha dinheiro suficiente para pagar tratamento psicológico e em que os parentes não tinham, nem paciência nem tempo, de cuidar decentemente deles. Asilo era o nome simpático de um lugar em que as pessoas despejavam pessoas que se tornaram um incômodo para eles.
Eu era uma criança entrando em um universo completamente novo, de velhice, doença e abandono. È normal que tenha notado tudo com curiosos olhos enormes e registrado algumas coisas na minha memória.
Lembro nitidamente de um que homem virou a mesa de centro abruptamente e se voltou contra uma mulher que se encontrava a sua frente:
- Já falei para você não olhar para mim
- Eu não olhei, seu cretino.
Ele correu para violenta-a, mas os seguranças vieram amarrá-lo e ele dizia:
- Eu falei para ela não me olhar
Eu estava sentada bem perto e pensei que eles deveriam ter sido um casal anterior à loucura. E o que será que tinha vindo primeiro? Será que a convivência alimenta a insanidade ou o primeiro grau de loucura era persistir em um relacionamento?
Minha parente mesmo tinha poucos momentos de convívio sem começar a andar ininterruptamente por um campo aberto, olhando fixamente para o céu.
Eu estava sentada ao lado da minha avó, debaixo de uma árvore, quando avistamos uma senhora com a perna quebrada fazendo tricô quase ao nosso lado.
Minha avó sempre foi interessada em artes manuais, inclusive o tricô, e foi conversar com aquela senhora de bochecha cheias e rosadas, que parecia tão pacifica no meio de todas aquelas pessoas nada convencionais.
Começaram a conversar sobre pontos de tricô, a velha era realmente simpática, dessas que sorri com pequenas coisas e que nos sentimos bem de estarmos ao lado. Eu, com toda sinceridade infantil, falei:
- Mas você não parece como eles (olhando ao redor para as pessoas enlouquecidas)
Minha avó me olhou com olhares de repreensão, e a mulher com olhos de compreensão carinhosa. È curioso, quando se é criança, receber olhares tão opostos em uma mesma situação.
-Eu perdi meu marido e minha filha, quebrei minha bacia e não havia quem cuidasse de mim. Ninguém quer cuidar de uma velha desconhecida com a bacia quebrada. Então, me internaram aqui. Eu nunca recebo visita e não tenho contato com as pessoas daqui, só leio livros e faço meu tricô.
Eu comecei a olhar todos aqueles malucos que se encontravam na nossa frente e perguntei:
- Eles são felizes?
E ela me respondeu algo que não pude esquecer
-A felicidade não depende da sanidade mental, meu bem. Chegou aqui um homem que se irritava porque a cadeira era azul e não verde. Você acha que isso faz mais sentido que um homem que se irrita com outro no transito? Tudo depende do universo em que a pessoa vive. Aqui os carros não interessam, talvez a cor da cadeira interesse mais.
Aquela senhora era normal no meio de pessoas completamente desequilibradas. Quando saímos de lá minha avó disse enfática.
- Pobre mulher, ficará louca.
No momento não entendi, mas quando fomos na próxima visita vi a senhora de bochechas cheias, ela não fazia mais tricô. Eu e minha avó sentamos ao lado dela e seus olhos não tinham tanto brilho, estavam, na verdade, desvairados. Ela olhava para cima e para baixo sem se fixar em nada e respondia nossas perguntas monossilabicamente.
Estava nitidamente doida.
Aquilo confundiu minha cabeça. Se a maioria é louca, nos tornamos loucos também? Será que a maior epidemia que já contaminou o homem foi à loucura?
INGRID MANTOVANI // 12:53 AM
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