Black Lodge

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Quarta-feira, Outubro 31, 2007:

Uma história de final óbvio...*

-Olha que flor linda.

De todo aquele lugar de ruas e prédios imensos,
homens que possuíam carros caros e
mulheres de roupas sofisticadas e cabelos enormes,
aquela minúscula flor era a única coisa que me chamava atenção.
Ousada, de uma beleza extravagante.
Não tive coragem de arrancá-la. Não quis tocá-la.
Fiquei namorando da maneira que ela merecia.
De longe, intocavelmente.

-Olha, achei uma semente no chão,
podemos plantá-la naquele vaso vazio que temos em casa.
Será que nasce? - disse meu namorado, me tirando do transe.

Coloquei a semente no bolso,
meio desacreditada.
Aquele foi o final do verão.

Enquanto as folhas silenciosamente
abandonavam suas árvores no outono,
o meu vaso continuava vazio,
assim como minha esperança de ver algo nascer
nessa época em que tudo parece morrer.

Pensei em jogar o vaso fora
achando que um vaso vazio
só estaria na casa de uma pessoa vazia.
Mas algo me fez mantê-lo,
não saberia dizer exatamente o quê. Algo.

E então um dia eu acordei,
quando o inverno já congelava
todos os cantos do meu quarto
e os órgãos do meu corpo,
e vi um galho tímido nascendo daquela
terra negra e úmida.
Cheguei mais perto para constatar
e estava lá; um galhinho que parecia
tão frágil apoiando uma folha de uma cor forte,
quase fosforescente.

Enquanto toda Europa se preenchia
de árvores marrons e nuas,
eu era a única que podia ver um indício de vida aqui,
dentro da minha casa, dentro de mim.

*...para os que tem talento para vida




INGRID MANTOVANI // 8:51 PM

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Terça-feira, Outubro 16, 2007:




Aí vai o endereço onde você pode encontrar o
livro que citei lá embaixo do meu amigo Kyu... ops... Nick farewell:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?sid=02335117691015616188085718&nitem=2224992


GO!
“Um homem escreve um livro. Ele acredita que, quando terminá-lo, todos seus problemas estarão resolvidos. Mas a vida não é tão fácil. Vai precisar aprender algumas lições antes. Entre elas, solucionar um amor mal resolvido, encontrar a verdadeira motivação para escrever e aprender, de uma vez por todas, como preencher seu buraco no peito, a metáfora persistente de sua interminável solidão. Este livro é sobre o porquê de nossa existência. Ambientado no universo de rock alternativo, as músicas se misturam com a vida do personagem principal, verdadeira alegoria e retrato de nossa juventude.”

E enquanto o livro não chega por aqui, espero ansiosamente recebê-lo pelo correio.

INGRID MANTOVANI // 7:55 PM

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Quinta-feira, Outubro 11, 2007:

La Nuit Blanche

Ontem foi La Nuit Blache em Paris.
Noite que se abre para a arte. Artistas,
comedores de fogo, mágicos e músicos
passeiam pela cidade trazendo luz à escuridão.

Eu não conseguia entender porque ela,
amante da noite, do dia e das noites-dias,
estava em casa.

Era um fio, fino e imperceptível
que envolvia todo o seu corpo,
dando voltas sinuosas entre
a cadeira, mesa, cama, banheira.
Ela estava lá, como Nástienka,
atada à própia casa.
Mas diferente dela,
nem a noite branca a fazia sair.

James Joyce diria que não há vida
para os que não saem de casa.
A frase não é exatamente assim,
mas o sentido é próximo.
Ela não discutiria com James Joyce.

Então ela descobriu porque
costumava sair tanto de casa,
perdida nas noites e nos copos.
Entre pessoas tão condenadas
ao grande nó de solidão quanto ela;
ela procurava a vida.

E ela encontrou muita vida,
mas também muita ruína.
Muito sentimento e também muita insipidez.
Muita pobreza e muita opulência.
Muito deleite e muita mágoa.
Ela mergulhou em todos, de cabeça e sem receio.

Esses excessos a iluminaram tanto
que agora ela não saia mais para procurar vida.
A vida a visitava todos os dias colocando
mais e mais fios invisíveis fazendo
com que tudo que fosse vivo se instalasse ali mesmo,
não muito longe da sua própria casa.
A vida estava em todos os lugares,
dentro e ao redor dela.
Tão radiante que todos podiam ver.

Aquela menina de alma escura,
estava ligada irrevessivelmente à luz,
fazendo com que ela própria fosse a Noite Branca.

E finalmente,eu entendi porque ela não saiu àquela noite.

INGRID MANTOVANI // 8:15 PM

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Sábado, Outubro 06, 2007:

Não deviam ser nem 3 horas da manhã
quando eu tomava o último gole
da minha vodka sem gelo,
e o sofá da funhouse insistia em me engolir.
Então, ele apareceu.
Sentou na minha frente
e conversamos sobre livros e poesias
por todo resto da noite.

Foi assim que conheci Nick Farewell,
mas que eu faço questão de chamar de Kyu.
Ele nem sabia o que fazia naquele momento,
mas a verdade é que ele me salvada
de ser engolida pelo sofá.

Depois disso, ele me contou
que estava escrevendo um livro.
Por conhecê-lo um pouco
já sabia que um dia ele o publicaria.
O Kyu, entre outras qualidades, é determinado.

E eu sou sortuda por conhecê-lo.
Adorava receber seus telefonemas,
nas horas mais inesperadas para a leitura de mais um capítulo.
Sim, eu sou privilegiada de ter o livro lido pelo autor,
palavra por palavra,
vírgula por vírgula
que viajavam pelas ondas telefônicas
e chegavam frescas deliciando meus ouvidos.
GO! era o meu livro vivo.

Segundo ele, eu mesma,
sou inspiração para uma das personagens.
Falo isso com prazer, pois se vocês
chegarem a conhecer a Ginger vão se apaixonar.
Ela é a mulher ideal,
um pouquinho de mim e muito da imaginação dele.

E por que estou escrevendo tudo isso hoje?
Bom, porque hoje, assim como eu esperava que fosse um dia,
é o lançamento do livro GO!
O primeiro passo para fazer o que o Kyu faz de melhor;
salvar as pessoas de serem engolidas por si próprias.

Gostaria muito de estar no lançamento,
mas fico feliz por saber que estarei lá de alguma forma.

INGRID MANTOVANI // 8:39 PM

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